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Estudo em restaurante reforça risco de transmissão do coronavírus pelo ar em locais mal ventilados


Pesquisadores chinenses identificaram contágio por Sars-CoV-2 potencializado pelo ar-condicionado em estabelecimento onde 10 clientes foram infectados
João Paulo Saconi
29/04/2020 


Em busca de respostas para questões ainda não respondidas sobre o novo coronavírus, cientistas chineses concluíram que o contágio pelo Sars-CoV-2 pode acontecer através do ar, por meio de partículas suspensas do agente infeccioso, principalmente em locais fechados, com más condições de ventilação e onde há aglomerações.

Publicada na semana passada no portal especializado medRxiv, a prévia de um estudo realizado por pesquisadores de diferentes instituições da China — entre elas a Universidade de Hong Kong e uma das divisões do Centro de Controle e Prevenção de Doenças — confirmou que clientes de um restaurante da cidade portuária de Guangzhou foram infectados no fim de janeiro sem necessariamente terem entrado em contato físico uns com os outros ou com superfícies contaminadas.

Para os cientistas, a respiração e a fala de um paciente infectado pelo novo coronavírus foram responsáveis por suspender no ar as partículas do vírus, que acabaram circulando através de um fluxo criado por um aparelho de ar-condicionado. A infecção se deu em uma zona restrita do restaurante onde a máquina de ventilação artificial surtia efeitos.

O episódio estudado aconteceu em 24 de janeiro, durante as comemorações do Ano Novo Chinês, e terminou com dez casos de pessoas infectadas no estabelecimento, todas elas pertencentes a três famílias diferentes. No local, apenas um cliente já tinha sido acometido pelo novo coronavírus naquela data: embora estivesse assintomático, ele havia acabado de retornar de uma viagem à cidade de Wuhan, onde o coronavírus foi registrado pela primeira vez no mundo.

A possibilidade de que a transmissão do vírus tivesse acontecido sem contatos físicos no interior do restaurante já havia sido levantada em outro estudo chinês disponibilizado no início do mês pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. A hipótese, no entanto, ganha mais força com a publicação mais recente, considerando que ela reúne, entre outras evidências, a descrição de uma simulação de contágio realizada no próprio restaurante em que estiveram os membros das três famílias infectadas.

A descoberta reforça também a preocupação com a identificação com partículas do novo coronavírus em suspensão encontradas em dois hospitais de Wuhan e em áreas públicas vizinhas a eles, revelada na segunda-feira em um estudo publicado pela revista Nature.

Falta de ventilação natural

No entendimento dos pesquisadores, não foi somente o fluxo de ventilação criado pelo ar-condicionado em torno de uma aglomeração que levou ao contágio das famílias pelo novo coronavírus. Um outro componente também foi definitivo para que isso tenha ocorrido: a ausência de ventilação natural no restaurante.

Embora as três mesas estudadas estivessem enfileiradas diante de uma janela, ela estava fechada. Havia ventiladores com a função de exaustores nas paredes do estabelecimento, mas eles não estavam em funcionamento. As únicas injeções externas de ar no local provinham de um exaustor instalado no banheiro e pela abertura da porta de entrada, o que não foi suficiente para impedir que as partículas do coronavírus se espalhassem, diminuindo a chance de contágio.

O alerta dos cientistas chineses, portanto, direciona para os riscos de contágio em locais fechados, com má ventilação e aglomeração de pessoas. No estudo, os pesquisadores afirmam que os resultados obtidos “não mostram que a transmissão de aerossóis do Sars-CoV-2 pode ocorrer em qualquer espaço fechado, mas que essa transmissão pode sim ocorrer em locais espaços fechados e mal ventilados”.

A recomendação deles é para que as medidas que restringem aglomerações sejam mantidas e para que locais com características semelhantes à do restaurante em Guangzhou redobrem os cuidados com a ventilação dos ambientes.
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